NYC – parte II, mais comentários cretinos:

– Williamsburg foi um capítulo à parte. Este pedaço do Brooklyn é uma delícia e é um lugar bombante de NY atualmente. Já até li na Time Out que os hipsters mais radicais estão imigrando pra região de Greenpoint. Tive muito pouco tempo pra explorar o bairro, não consegui nem ver uns showzin indie nos vários halls e galpões onde as bandas soltam o som. Lá você se sente, em alguns momentos, num país nórdico. Pela arquitetura também. Lugar muito criativo, feiras, lojas, e, claro, a feira gastronômica que rola aos sábados até o fim de outubro, que é até quando o clima deixa. Lá você vai ver uma competição de quem é mais criativo nas comidinhas. Tem sanduíche de sorvete, de lagosta, chás hipsters, pizzas, docinhos doidos, comida de tudo que é canto do mundo. Um barato. E rola na beira do rio, com vistão pra Manhattan. Não dá pra perder, mas acho que no inverno não rola.

– A gente teve a prova de que “Williamsburg não é mais a mesma” (segundo os locais), “tá na moda”, porque fomos jantar num restaurante italiano lá e sentou do nosso lado um grupão de nova-iorquinos ricos e coxinhizados, com cara, mesmo, de ser uma galera que mora, sei lá, no Upper East Side. Eu acho jóia, diversifica. Só hipster também cansa. Você fica cansado de ver tanta gente precisando mostrar que é descolado. 🙂

– Outro lugar do Lower East Side que parece ser interessante é chamado “The Box”. Descobri que nesse espaço rolam streeps teatrais, sempre num contexto dramático. Parece que às quartas e quintas. Exemplo: homem com talidomida tirar a roupa. Imagina a dificuldade, o cara conseguir fazer isso e lidar com as limitações do próprio corpo. Eu passei em frente a esse lugar num domingo e rola uma festa chamada “Farofa”. Humm. Passei na porta e tinha um monte de hipster do lado de fora, fumando. Quando alguém abriu a porta, eu escutei um “quer dançar, quer dançar, o tigrão vai te ensinar”. Socorro! Caí fora. Por mais hipster que seja uma festa dessas (só tinha locais), não dá, né? Eu aturo cultura brasileira o ano todo. Por favor.

– “SLEEP NO MORE”: outro ponto alto da viagem, é um espetáculo teatral bem heterodoxo, que rola num hotel desativado no Chelsea. É na vaibe NO TALKING: nem de espectador, nem dos atores. Você fica livre pra circular nos cinco andares do hotel, com escuridões, música meio assustadora, cenários bizarros e vintage, e os atores fazendo coisas aleatórias e muito surreais. Quem vai assistir ganha máscara e tem de colocar. Só os atores não têm. Dar detalhes seria sacanagem. O horário do início é tarde, eu fui na sessão da meia noite. E ó, eu iria de novo. É uma experiência. Há quem não dê conta, mas vale tentar. Dizem que tá ficando conhecido porque alguns atores de Hollywood já foram e elogiaram muito.

– Musicais: optei por ir em dois que fossem com música americana: Motown e Janis Joplin. O primeiro conta a historinha do mocinho da gravadora e tem muita música Black da galera toda da época. Curti bastante. Mas imperdível mesmo é o da Janis. Absurdo. É simples: reflexões em monólogo dela mesma, e com 90% de música, produção simples e muita voz solta. Há também a dramatização do encontro dela com a Aretha. E conta um pouco, pelas reflexões, um pouco da vida dessa texana incrível, e que perambulou com os negões do sul dos EUA, no eixo Texas/New Orleans. A atriz/cantora que faz a Janis está divina. Olha que eu sou chata, difícil eu gostar de um musical, mas esse realmente tá demais. Até a crítica do NY Times se rendeu.

– Show da Fiona Apple: esplendoroso. Que bom que escolhi ir. Ela é uma pessoa heavy no palco, é afetada às vezes, seu comportamento é sempre imprevisível. A platéia era em parte hipster, ela é uma espécie de musa da galera alternativa de NY. A danada faz miséria com a voz e com o piano, mas se não tivesse tanta histeria da galera gritando por qualquer coisa que ela fazia no show teria sido mais aprazível. Anyway, Fiona tem um trauma de adolescência, pois foi estuprada e isso virou uma espécie de mote para a carreira dela. A arte da moça tem muito a ver com a necessidade de elaboração da experiência. Dou desconto a ela por ser tão instável. No fundo ela ainda é uma menina muito assustada. E uma artista absurda, fiquei mais amarradona nela ainda do que já era!

– NYC Ballet: incrível, fiquei felizona de ver um espetáculo tão bem feito e tão bem ensaiado. Dá pra ver a meritocracia tão pregada pelos americanos, se você é muito bom dançarino, entra. Uma das cabeças do time de balé moderno é uma bailarina argentina. Que orgulho dela!

– Madison Square Garden: fui à opening night dos Knicks, o jogo em si não tinha importância mas valeu porque finalmente eu vi um jogo da NBA com todo aquele show business e coisa e tal. Galhofa divertida. Pessoal de NY nem come tanto, eles inclusive são bem menos gordos que o resto do país. E o troço é feito pra ser um evento multimídia mesmo. O jogo, em si, é musicado, muito engraçado o DJ soltando aqueles clássicos e progressivos sons de teclado, numa vaibe anos 80. Quando o jogo pára, o espetáculo não pode parar, né? Ou você vai comer uma junk food nas lanchonetes, ou fica sentadinho vendo as dancinhas das crianças, das meninas, ou então eles focam a câmara na carinha de alguma celebridade. No dia que eu fui, o mocinho do “I see dead people” tava lá. Crescidinho. Ah, e o MSG está reformado, bonitão, moderno.

– Um dia que eu tava no Lower East Side acabei tirando fotinha do prédio onde a Madonna morou primeiro quando foi pra NY, antes de ficar famosa. Coisa mongol de fã, mas é legal pensar que ali moraram outros artistas anônimos, que também foram acolhidos.

– Show do Franz Ferdinand foi foda, rolou num dos vários Ballrooms de NY, o Hammerstein. O som dos caras é a cara de NY e a galera roqueirinha sem muito estereótipo tava lá, de boaça. Destaque pra galera da terceira idade que estava trabalhando no bar do Ballroom, de boinha, numa animação contagiante. Dava gosto comprar cerveja, jóia.

– Blue Note: dizem que é um dos melhores clubes de jazz de NY. E é mesmo, foda. A gente foi num show com brunch. Meio dia de domingo, um solão, e lá dentro tudo dark, parecendo noite. O show foi de uma banda internacional, com pianista e guitarristas de Israel, baterista alemão e contrabaixista da Jamaica. Trilha sonora lados a,b,c,z, incluindo Dorival Caymmi e uma música do Jacob do Bandolim chamada “o vôo da mosca”. Velho, na boa, nunca imaginei que eu iria pra NY pra aprender sobre música de raiz brasileira. Tapa na cara! O israelense queria saber se, por acaso, tinha algum brazuca na platéia. Nós éramos as únicas. 🙂

 

 

Vamos aos comentários aleatórios e cretinos sobre NYC:

– Simpatia inusitada do povo – de estrangeiros a americanos. C entra num lugar e espirra, e não raro aparece alguém pra mandar um “god bless yaaa” em ritmo de quase hip hop. Dizem que a cidade passou por um período muito difícil pós 11 de setembro, e depois entrou numa vaibe mais humanizada. Acredito, pode ser.

– HIPSTERS – taí a histeria mais engraçada de NY. A velada disputa sobre quem é mais hipster. Pra quem não faz idéia do que isso seja, pense em alguém saudosista, que usa o terno do avô, os óculos do tio-avô e se embebeda de café em vez de álcool, tem cara de intelectual e faz coisas excêntricas, tal como assistir a um streep de uma pessoa com talidomida, fumar cigarros europeus, escutar bandas indie, usar máquinas de escrever e por aí vai. Se você vai à “NY dos nova-iorquinos”, essa tribo é muito presente e perceptível em vários níveis. Aliás, é bom dizer que a diversidade em NY é imensa mas ela vai até a página 5, é cada um no seu quadrado. A humanidade engatinha no tema, né?

– Fui ao show do Pearl Jam: não tinha negro. Não tinha, não tinha, não é exagero. E olha que o show foi no Brooklyn, um bairro que sofreu forte elitização, mas ainda tem bastante negro. Grunge é coisa de branquelo alternativo, sei lá, os mundos são bem apartados mesmo. Nenhuma novidade, mas, enfim, chama a atenção.

– Fui ao Clube Ritz, um lugar importante na história do rock dos anos 80, onde U2 e Depeche Mode fizeram shows pela primeira vez nos EUA, e onde o Guns se revelou ao mundo. Mas fui pensando que ia ter algum show de rock legal. Cheguei tarde e acabei pegando a night do lugar. O cenário era: um ambiente com música eletrônica com brancos de todos os tipos (playboys, geeks, freaks etc), inclusive hipsters, e o outro ambiente era uma espécie de festa high school negra “para maiores”, com muito hip hop e uma forte vaibe sensualizada. Mundos bem apartados e delimitados.

– Spa 24h em Korea Town: de estar com o corpo acabado pela super-estimulação nova-iorquina, acabei fugindo por algumas horas para um SPA, pra fazer massagem e sauna. A massagista xinguelingue até subiu nas minhas costas, adorei. Depois fiz sauna pelada, solita, sensacional. A recepcionista era russa, uma fofa, super conversou comigo. Eu disse pra ela que tinha um monte de amigos e alguns ex que são loucos pelo país dela, e ela riu, dizendo que “facilmente eles conseguiriam a cidadania, se quisessem”. Hahaha, até agora não sei o quão irônico foi o comentário dela, se é que foi! 🙂

– Difícil falar o que essa viagem me causou. To digerindo, ainda, tudo que vivenciei e senti, mas uma coisa é certa: jamais tive em qualquer lugar que fui uma overdose de estimulação. A densidade de coisas dessa cidade é um negócio absurdo. Olha que eu já fui a Londres, Hong Kong e outros espaços urbanos muito full of things, mas não sei se qualquer outro lugar do mundo conseguiria apreender tanto o meu desejo de vivenciar, de experimentar, como NY. É um lugar tão denso de coisas distintas, é uma cidade tão pirocuda em vários aspectos que você é compelido a exercer escolhas e abrir mão de todo o resto de opções. Vinte dias não são NADA ali. A primeira coisa que fizemos em NY foi dar uma volta na Nona Avenida e escolher um restaurante pra almoçar. Pronto: iniciado estava o inferninho. Você vê um monte de restaurantes de tudo que é lugar do planeta, e não sabe o que fazer. Bizarro! E pra começar barbarizando, a gente escolheu um restaurante afegão. Jóia!

– Logo no primeiro dia também, à noite, fomos à Filarmônica de NY ver a Nona Sinfonia de Beethoven. Bárbaro, chorei na última parte atééé. E nunca tinha visto ao vivo um negão soltando a voz lírica. Difudê! Os negão da América do Norte são foda. Foda. Top.

– Sotaque: ó, né muito fácil não. Os negros falam o Black english, tal, pá, parece que tão recitando um rap, e o sotaque dos brancos é meio holandesado e meio irlandesado. “Houston”, por exemplo, eles falam com sotaque holandês (“rálston”). E dá pra falar espanhol pra quem gosta, basta sacar se a pessoa que c vai falar tem cara de latino.

– Ninguém me contou do metrex nova-iorquino! Pessoal que vai a NY por meia dúzia de dias, faz compras e vai à Broadway, não tem tempo de se tocar da casca de banana que é o subway de lá. Isso tudo porque Manhattan é uma ilha fina e cumprida, e o povo lá escolheu fazer linhas longitudinais e latitudinais e que nem sempre se cruzam, aliás raramente isso acontece. Só que fica mais rápido pro morador local se deslocar no sentido norte/sul. Conclusão: não dá pra se enfiar em qualquer buraco do metrô e achar que você vai resolver sua vida. No no! Se este broguinho tivesse a intenção de ser guia turístico, fundamental seria dizer pra você estudar o metrô de NY antes da viagem. Eu levei mais ou menos uma semana pra me acostumar com a lógica do funcionamento dele. Depois que a gente pega o macete, ele fica lindão, porque funciona 24h e te leva pra todo canto. E ele é meio sujinho, é meio hipster, como NY, tem ratinhos, tem arte, é um espaço de criatividade. Tanto quanto o underground londrino, o subway nova-iorquino é também um personagem da cidade.

– Museu do sexo: fui! Criativinho. Nunca fui a outro museu do tipo, e o de NY me chamou a atenção pela pegada estadunidense de sempre querer puxar pro científico as questões da sexualidade. É um museu nerd em certo ponto. Mostra pesquisas sobre homossexualidade no mundo animal, sobre as expressões sexuais mais buscadas no Google, e também mostra escândalos sexuais no mundo acadêmico e político. This is America!

– NY te faz sentir às vezes que você está na América. Quer dizer, você sabe que está na América, mas tem hora que parece que não. Alguns momentos você é lembrado com muita clareza que está, sim, na América, e darei um exemplo jóia: a pulseira ou carimbo do “check! Você tem 21 anos ou mais”. Em qualquer lugar “para maiores” (bar, boate etc), eles são obrigados a verificar sua identidade. Rapaz, chega a dar vergonha alheia da forma como eles fazem isso de forma hipócrita e automática, e ninguém questiona. No show do Franz Ferdinand eu vi vários homens com cara de 40 anos de idade, alguns já carecas, com a tal da pulseira no braço. É um troço que não tem como você não prestar a atenção, e é claro que eu tive que dar uma zoada nisso, mandando um papo do tipo: “Mermão, olha pra minha testa cheia de ruga, c acha mesmo que eu tenho menos de 21 anos??” O mocinho do controle riu, e disse: “Oh, you´re an young lady… (rindo, sem graça)”. THIS IS AMEEEERICA.

– Outro momento que eu pensei muito sobre estar na “América em estado puro”: quando fui no Bar Jimmy BBQ, onde o povo toma a cerva no pré antes de ir ver algum jogo no Madison Square Garden. É um american bar roots, zero hipster, com um bando de homens ogros bebendo e olhando obsessivamente as telas das tv´s com todos os resultados.

– Tinha acabado de comprar a Revista Time Out (sobre entretenimento) e tava perdida nas opções do que fazer, quando vi que ia ter show do Idan Raichel, um artista israelense jóia. O show começava em 40 minutos, eu saí correndo e cheguei, sem ingresso, na porta do teatro, lotado do lado de fora. Povo entrando, aquela aglomeração de gente, e tal, quando de repente vi um pequeno grupo fazendo protesto pró-Palestina. Tinha um policialzinho da NYPD só olhando, de boinha. Muito judeu entrando pro show, claro, e muita revista na entrada e vida que segue. Sobre o show, incrível. Mix of people na banda, o percussionista era carioca, tinha três vocalistas internacionais, com world music, em especial do Oriente Médio.

– Falar em Oriente Médio, Israel continua sendo o lugar mais diversificado que eu já fui. NY é muito, claro, mas não barra Israel não.

– Daquelas cenas que eu nunca vou esquecer na vida: vimos uma senhorinha, muito velhinha, que aparentava ter uns 90 anos, sozinha, num andador, COM BALÃO DE OXIGÊNIO, caminhando lentamente em direção à entrada do Metropolitan Opera House. Minha amiga, que viu a cena primeiro, é médica e ficou de caaara. Eu, quando virei e olhei fiquei embargadona, comecei a chorar. Que vontade de viver, bicho! Fantástico. A terceira idade nova-iorquina é muito jóia, a galera tem qualidade de vida, tem dinheiro e vive muito a vida. Ingresso pra ópera tava tudo esgotado.

– NY superou as expectativas no quesito segurança. É absurda a qualidade de vida de quem mora nesse lugar. A cidade tem coisa pakarai acontecendo, todo o espaço urbano é acessível por metrô 24h e você pode andar de boaça na rua de madrugada. Mega trank. E como sempre tem insones perambulando pela city, c fica acolhido. Além disso tudo, é a cidade mais fácil do mundo para você andar a pé! Especialmente Manhattan, com as ruas numeradas e com disposição urbana em formato de waffle. Se você aprendeu na escola o que são os pontos cardeais básicos, você tá de boa lá.

– A galera viajeira tem que se ligar que Manhattan não é sinônimo de NY, muito pelo contrário. Sair da ilha e explorar o Brooklyn, Williamsburg e afins é algo obrigatório pra quem tem qualquer interesse além Times Square/Broadway/compras. Fora da ilha você se sente às vezes nos países nórdicos, às vezes em Londres, às vezes na África, e também numa Hipsterlândia.

– Em Manhattan, eu arriscaria dizer que o cantinho que eu chamaria de meu é o Lower East Side. Ah… Amei esse lugar! E o Rockwood Music Hall foi um dos causadores disso. Eu simplesmente viciei nessa joça. A idéia do troço é a seguinte: é um music hall. Com bar. Não é um bar com música ao vivo. É um espaço com três ambientes independentes, mas eu fiquei só pelo stage 1. A entrada é free, basta mostrar a identidade Félix Pacheco e provar que você tem mais de 21 anos. Você entra e tem show de segunda a segunda, de 6 da tarde até 2h da manhã. Fim de semana começa mais cedo. Um artista atrás do outro, uns seis shows por dia no mínimo, todos ali mostrando o seu trabalho, alguns pisando num palco pela primeira vez na vida. NY, por demanda, tem muito músico bom e, claro, gente nova querendo mostrar seu som. Ali dá de tudo, bandas experimentais, jazz, rock, blues, misturas, trios, duetos, enfim. Detalhe: ninguém vai ali fazer cover. Todo mundo mostra suas próprias composições, com coragem, troço lindo. Depois de cada show, as garçonetes passam um balde para, quem quiser, dar uma gorjeta. Alguns artistas distribuem Cd´s, outros, mais hipsters, disponibilizam vinis mesmo. Tem gente de todas as partes dos EUA que vai tocar lá. Lugar é pequeno e zero turístico. GAMEI.

Para fugir do Papa Boludo I e da Micarecatólica, inventei uma viagenzinha rápida pro interior do Rio Grande (tchê) do Sul, especialmente os municípios de Sananduva e Passo Fundo, região onde uma amiga minha do Rio vive há cinco anos. Demorou porque a preguiça de escrever era grande, mas aí estão alguns comentários aleatórios e cretinos:

– Vou começar cornetando o jeito sul rio-grandense de lidar com o inverno. É muito roots, não sabia, MESMO. Fiquei impressionada, achei que eles tinham um pouco mais de estrutura. Dentro de casa o improviso impera, e em todas as classes sociais: é panela com álcool p/ tacar fogo e esquentar o banheiro antes do banho (sério, ouvi isso de uma local que NÃO É POBRE). Aquecimento na casa toda? Que nada. Nem perto disso. Quem mais tem estrutura tem um aquecedor bem ineficiente, vi vender no mercado, ou então split a 30 graus, que ñ adianta muito também. A maioria tem lareira em casa, mas isso ñ esquenta nada, a não ser quem fica sentado e parado do lado dela. Mas bááá, eu fiquei de cara pela escolha por economia na conta de luz. Como assim? Fora que fiquei um tanto incomodada com a fumaça das chaminés das casas, e as roupas voltaram todas fedendo. Isso eu achei caído, foi um ponto fraco que observei logo de cara, até porque quando cheguei lá a temperatura tava bem baixa, zero grau à noite e temperatura negativa de madrugada. Eu tinha até um ritual de banho: tomar sol no jardim da casa até sentir calor e correr pro banheiro… rs… No dia que não consegui fazer isso, o banho restou devidamente arquivado. E que se dane! 🙂

– Na região tem bastante índio, e eles são bem combativos, brigam pelos direitos. O povo branco local sempre reclama deles, escutei isso de todos. E pela primeira vez na minha vida eu tirei uma foto de um índio no aeroporto (em Passo Fundo) – ele era gordo, tinha celular e usava boné. Minha amiga disse: “Tá vendo?! Os índios aqui são assim!”. Vou postar no twitter a foto! (@missraquel28)

– Presença massiva de senegaleses em Passo Fundo. Vi vários nas ruas. Pelo que ouvi, eles estão lá de boaça, trabalhando e com incentivo do governo federal. É um ótimo contraste pro Rio Grande!

– Vivenciar o provincianismo é sempre uma experiência não tão trivial pra mim. Pro bem e pro mal. Tomar sol no jardim da casa da minha amiga e escutar os locais me cumprimentando e desejando “saúde” quando eu espirrava foi uma coisa muito fofa e que me lincou com a infância. Vi meninas montando casinha com cadeiras e toalhas e brincando na calçada. Isso é uma delicinha. Mas ao mesmo tempo tenho muita preguiça do lado obscuro que tem o big brother de uma cidade tão pequena. É sempre uma sensação estranha de alter regulação, as pessoas curtem muito se alimentar umas das vidas das outras de uma forma que me dá broxura.

– Uma das coisas legais das cidades grandes é que menos importa o que se tem, você tem muito mais valor por outras questões, a cultura do ser tem mais espaço. Nas pequenas localidades a cultura do ter é forte demais (no continente americano como um todo, né?), e isso fica tão clarividente quando se vai a um lugar como o que fui… E no geral, a cultura do ter é mesmo mainstream no Rio Grande, não à toa uma parcela de Porto Alegre acabou sendo um contraponto e um lugar de erupções mais progressistas. O RS é, mesmo, um lugar de dualidade. Pois é, inclusive a província do Rio da Prata adora isso, com as dores e delícias de assim ser.

– De Passo Fundo até Sananduva, a estrada é mão dupla, e isso é uma troço que eu não lido muito bem. Nunca gostei muito de estrada, muito menos essas. A conservação deixa a desejar, esperava um pouco mais de estrutura. Duplicar é necessário. Estrada de mão dupla é um troço muito bizarro, odeio, sempre odiarei, em qualquer lugar! E já sou uma pessoa que tem medo de andar de carro, prefiro mil vezes os ares (serião).

– Ah, o tortei de abóbora! Amei, comi várias vezes. É uma massa caseira recheada, com molho branco incrementadinho. A moça que trabalha na casa da minha amiga fez pra gente, ela mesma faz a massa, com ovo de “colônia”, que seria o “ovo caipira” daqui, acho eu.

– O povo da região fala cantadinho, parece que estão ensaiando uma ópera, muito engraçado!! E tem os “gringos”, que falam um dialeto, um mix de italiano com português, enfim, não os vi, minha amiga que disse. Tô repassando informação.

– O folhado “Catarina” é famoso em Passo Fundo, vale a pena comer. É doce, mas é um doce que é bom. Ir à padaria Cruzeiro sábado à tarde é um programa que muita garotada faz por lá.

– Estrutura de saúde de Passo Fundo é impressionante, uma UNIMED gigante, vários hospitais. Atende a região toda. Minha amiga disse que tem 51 anestesistas ali, olha isso!! Vejam bem: a cidade tem 150 mil habitantes, e tem aeroporto – pequeno, mas tem. E daqui a pouco deve ser ampliado, antes só tinha vôo da Avianca, agora tem da Azul também. Não duvidaria de, daqui a algum tempo, o aeroporto virar internacional.

– Fomos num pub bom em Passo Fundo, pub de responsa, parece inglês mesmo. Bem legal. E tocou uma banda boa, com set list lado b. Joinha.

– Engraçado que os estereótipos sociais ficam bem marcados. Você olha pra pessoa e ela é: ou mainstream coxinha, ou alternativaça, ou gaúcho cowboy. Não tem meio termo, isso é bem marcante… Qual é a novidade, né? Tudo que é lugar é assim… aff…rs

– Queria muito provar os vinhos de colônia, mas fui impedida. Minha amiga que mora lá não gosta e vetou, e acabou comprando vinhos de outros países pra gente beber… rs… Realmente: o vinho tinto, que era o que a gente queria tomar por causa do frio, é o ponto fraco da safra nacional.

– Gente, a bifurcação entre “damas e putas” é um clássico no Rio Grandeee!!! Caramba, eu vi PUTEIROS COM LUZ VERMELHA NA ENTRADA, red lights roots, de verdade, sensacional !!! Surtei quando vi, meu lado socióloga/jornalista galhofeira se encantou ao ver isso com os próprios olhos.

– Amei a experiência antropológica lá, voltaria de boaça, mas não no inverno. A falta de estrutura atrapalha, a experiência fica menos aprazível do que poderia ser. Jantar com a galera local, com os amigos da minha amiga, ir na casas das pessoas, enfim, estas foram as coisas mais legais, e a intenção era essa mesmo. Realmente é uma vivência em que parece que a gente se transporta pra outro universo.

– Quanto ao povo, pra mim vale sempre a óbvia premissa de que, no geral, todos os povos têm um lado bom e um ruim. Os gaúchos têm uma faceta interessante à beça, é um povo com IDH melhor que a média, são educados, os mais roots gostei mais, são mais genuinamente simpáticos e desarmados, o RS é um estado progressista em vários aspectos, inclusive algumas das mais pioneiras decisões judiciais no país vieram de lá, isso é bem legal. Só que, fazendo um contraponto com os uruguaios, acho que os gaúchos ficam atrás no quesito “pátria”. O tempo todo que estive lá recebi pelo whatsapp dos amigos da minha amiga aquelas piadinhas sobre o RS como país, algumas muito engraçadas. Mas chega uma hora que dá uma canseira, dá uma preguiça… rs… O tempo todo precisar se reafirmar é uma coisa meio mala. Acho uma bobagem, acho que os gaúchos são interessantes em vários aspectos e não precisam exagerar na dose da auto-afirmação, até porque é mero blá blá blá. Eu sou, inclusive, adepta da corrente (minoritária, eu sei) que defende que o território nacional não é cláusula pétrea, ou seja, não seria inconstitucional se algum estado ou região quisesse ser independente. Só que o resto do Brasil teria que aceitar, claro. E a região que quiser não mais ter a ajuda federal, que pague o preço por isso, como o Uruguai fez, e muito bem. Irlanda também paga o preço e tá lá, de boaça, com as dores e gostosuras de ser uma “nação livre” da Realeza. Sou mega light com isso, esse papo não me assusta não. E vocês sabem que, se a história da humanidade dependesse de mim, não teria fronteira de porcaria nenhuma. E eu me sinto cada vez mais desterrada, fato: minha alma não é puramente brasileira, e nem puramente “riodejaneirense”, já que sou nativa do Estado do Rio. Minhálma é mucho más que isso. 🙂

Estando muito sugada pelo trabalho ultimamente, ando super de fora da vaibe Copa das Confederações, a ponto de não saber quem vai jogar com quem, a ponto de não ter parado pra ver jogo algum. Um dia liguei a TV e estavam jogando México e Itália, e eu me perguntei: que arena é essa? A de Brasília? New Castelão? New Fonte Nova? Cheguei a pensar: aff, os estádios estão todos pasteurizados, saaacooo. E de repente o que acontece? Eu me dou conta de que o jogo era no… Maraca! Bingo: não pude reconhecer minha cancha. Não me deram chance, ela foi desfigurada. Eu simplesmente demorei minutos pra me dar conta que estava vendo um trecho de um jogo que se passava no Maracanã. Ou Maracarena, ou ex-Maracanã, ou Maracoxinha. Enfim. Primeiro baque.

Ok, passou. Daí veio uma amiga filha de espanhol me enchendo o saco pra ver Espanha x Taiti. “Vamooos! Eu compro o ingresso, eu busco, sei que você tá enrolada”. “Tá, mulé, vai lá então. Eu vou com você”. Essa amiga nunca tinha visto a Espanha ao vivo, e queria uma companhia. E então, com zero tesão, lá fui eu conhecer o MaracanEIKE…

– Primeira coisa: metrô. Tinha tempo que eu não pegava o metrô pra linha 2. Escutei algumas pessoas falando em “linha verde”. Eu pensei: peraí, linha verde?? É a linha 2! Eu tava me sentindo turista, totalmente. Sem contar que: historicamente, a estação do metrô indicada para ir ao estádio SEMPRE foi a estação… Maracanã! Rá! Mas agora não é mais assim. Eu levei um susto… rs… Agora depende do lugar do estádio que você vai. Eu pensei: peraí?? Eu tava perdidinha. Eles estavam recomendando baixar na estação São Cristóvão, ou então Sanes Pena, ou sei lá mais qual, dependendo do nº do seu assento e setor? Eu, perdidaça aça. Pensei comigo: no meu tempo, era estação Maracanã, e ponto. “Ah, mas a FIFA não deixa mais, porque eles tiraram a passarela que levava direto da estação Maracanã pro estádio”. Ã? Bem, quando cheguei lá, fui do jeito que sempre fui, desci na estação Maracanã e peguei a passarela, enfim, eu fiquei sem entender titica alguma. Na verdade, depois eu vi que meu ingresso era do setor “azul”, “oeste”. Véi, é duro de engolir…

– Quanto à organização, não tem muito o que dizer, tava razoável, pelo menos do meu ponto de vista de torcedora as coisas estavam funcionando. Muito voluntário pra ajudar, no metrô foi tranqüilo, tive Israel feelings e fui revistada na entrada do estádio (como todo mundo), tinha uma menina israelense trabalhando por onde passamos, o que é legal, muitos estrangeiros, coisa e tal. Comi um saco de pipoca (parecia de microondas, e do mesmo tamanho), no valor estrondoso de 10 reais, e comprei cerveja por 9 reais, com direito a levar o copo estilizado. Nem achei absurdo o preço por isso, o copo é de plástico rígido e deu pra levar pra casa de lembrança. Cerveja Bud, com álcool, o que é ótimo. Acho uma grande palhaçada a proibição de cerveja em estádios, acho desproporcional, hipócrita, e ainda revela um lado bem mala dos brasileiros que é achar que a gente bebe muito. ENTENDAM ISSO, O POVO BRASILEIRO NÃO BEBE MUITO. QUEM BEBE MUITO É EUROPEU. ESSE CAMPEONATO A GENTE NÃO VENCE, ACEITEM ISSO.

– Quando eu entrei no estádio em definitivo, comecei a me ater aos detalhes. Sim, porque a coisa que mais ouvi foi que o estádio “estava lindo, primeiríssimo mundo, blá blá”. Bom, daí comecei a olhar com olhar chato mesmo, afinal essa bosta dessa obra custou os tubos e os rins da mulambada. Foi aí que me dei conta da cereja que faltava ao bolo da picaretagem.

Tudo o que foi feito no Maracanã, todas as questões que perpassaram a reforma do estádio constituem, pra mim, o símbolo MAIS CLARIVIDENTE DO LADO PERVERSO DESSA VAIBE COPA DO MUNDO. NO FIM DA CONTAS, É UMA REPRESENTAÇÃO PERFEITA DE UM BRASIL QUE EU TENHO ASCO, NOJO.

– Logo que passei na revista da entrada, comecei a olhar alguns detalhes da reforma. Quanto mais eu olhava, menos encontrava o dinheiro gasto, dava mais ódio. Fui ao banheiro e ele era beeem mais ou menos, diria quase vagabundo, prum estádio que estão dizendo ser de primeira, “coxinha”, “padrão FIFA”. Os assentos, supostamente “super coxinhas”, não são do melhor tipo. Em Wembley, sentei em assento de muito melhor qualidade. Coxinha por coxinha, a coxinha inglesa e de alguns estádios europeus é mais coxinha que a nossa, e a NOSSA CUSTOU MAIS CARO. Um ACINTEEEE. Lógico que a maioria do povo, que não conhece estádios fora do Brasil, tava achando tudo ótimo, mas eu me dei conta de que não era pra tanto. E o plus que faltava: A COBERTURA DO ESTÁDIO É DE LONAAAAA. Velho, a conclusão é inarredável: essa reforma do Maracanã foi uma das coisas mais escancaradamente canalhas que eu já vi na vida. Esses filhos da puta que conduziram esse processo todo mataram dois coelhos com uma cartolada só: eles não demoliram o Maracanã pra poder dizer: “Ah, o estádio foi preservado”, e também pelo simples e hediondo motivo de que reformar é mais caro que fazer outro. Eles “mantiveram” o estádio (mentira), e ao mesmo tempo tiveram maior margem pra justificar gastos com a reforma, e maior margem também pra fazer muita falcatrua, para, no fim das contas, me apresentarem um estádio QUE NÃO É TOP DE LINHA NO MUNDO. NÃO É, NÃO É, ESSES FILHOS DUMA PUTA MANCA NÃO ME ENGANAM COM ESTA PORRA. JÁ FUI EM WEMBLEY, NINGUÉM ME CONTOU, JÁ FUI EM OUTROS ESTÁDIOS EUROPEUS. Pelo que foi oficialmente gasto nessa merda, o estádio tinha que ser coxinha VIP, e não é. O Maracanã está num nível INFERIOR, isso pra mim é claro. Essa foi a novidade, porque eu achei que pelo menos esses meliantes de terno teriam um mínimo de vergonha e fariam um estádio realmente de primeira. O Maracanã, hoje, é uma boa arena, mas não é TOP. Simples assim. Hoje o Maracarena é um estádio desfigurado, coberto de lona, não se vê mais o Cristo de dentro dele, diminuíram as dimensões do campo e a capacidade máxima de torcedores, acabaram com a rede véu de noiva no gol (mas espero que volte depois, e acho que volta), virou uma arena como outra qualquer, perdeu as suas características arquitetônicas que o tornavam um “balcão”, uma cancha única. Muito triste, eu fiquei muito broxada, broxadaça. Tem que ir pra rua mesmo e botar a boca no megafone, pelo menos encher o saco desses babacueras todos.

– Por favor, divulguem isso, o MARACARENA NÃO É ESTÁDIO TOP TOP TOP NO MUNDO, NÃO É, ISSO É CAÔ, É NO MÁXIMO UMA BOA ARENA, ESTÁ NUM NÍVEL ABAIXOOOOOO DE WEMBLEY E ALGUNS ESTÁDIOS EUROPEUS, E QUE CUSTARAM MENOS.

– A melhor coisa de ter ido nessa pelada Espanha x Taiti foi ver a fofura da seleção da Oceania, e a galera fazendo verdadeira ação afirmativa e torcendo loucamente por eles, a ponto de em alguns momentos os espanholitos ficarem um tanto irritadinhos… rs

– Outra coisa que me chamou a atenção é que o público estava variado, não tinha quase negro mas claramente tinha gente de diferentes classes sociais, o que já é um avanço, né…

Num era muito a minha intenção falar de novo da MDNA Tour não, já até escrevi um post sobre os shows da última turnê de Madonna que fui. Mas… Ficou faltando algo, e então resolvi deixar aparecer por aqui algumas novas letrinhas sobre o tema. O certo é que ainda tenho coisas a serem ditas sobre essa artista que, depois de 30 anos de carreira, ainda me choca por conseguir se repaginar e ter saco e disciplina para continuar criando e performando por aí.

Queria falar sobre uma parte específica do show no Rio, e que não foi repetida nos demais que ela fez no Brasil. Alguns fãs fizeram um trabalho de formiguinha e colocaram no Youtube uma edição de vídeos amadores das músicas “Like a Virgin” + “Love Spent” – canções estas que, embora tivessem um certo script a ser seguido, Madonna fazia variações a depender de seu humor e do lugar onde estivesse se apresentando.

No Rio, esta parte do concerto teve uma conotação bem jóia. Bom lembrar o contexto do show em que é dada a tal performance: ela acontece ao final de um esquete em que Madonna resolve brincar com os estereótipos de gênero, vestindo-se de forma andrógina no começo (roupa social com gravata, mas com batom vermelhão e coque), perpassando pelo papel de homem macho que vai ao bordel, e com uma finalização maneiríssima na qual se despe aos poucos até que venha à tona uma Madonna mega mulherzinha, prostituída, submissa e sofrida.

“Like a Virgin” é indiscutivelmente um dos maiores hits de Madonna, é o tipo da música que mesmo quem quase não entende da cantora reconhece com facilidade os primeiros acordes. Madonna por muitos anos ficou sem sequer citar a canção – até porque ela, a dita “rainha da reinvenção”, é a primeira a enjoar de sua própria obra. Tornou-se comum em sua carreira a reinvenção de antigos sucessos como forma de no se quedar tan aburrida consigo misma. E tem ainda um detalhe curioso: essa é uma das poucas músicas da discografia de Madonna não compostas por ela – quem já se debruçou sobre alguma leitura mais profunda sobre Little Noni sabe que ela é mal resolvida com isso e não curte falar sobre o verdadeiro compositor.

Pois bem, ela entendeu que “Like a Virgin” cairia bem na final da dramatização do esquete de gênero da MDNA Tour. E a executou de forma totalmente repaginada, de um jeito melancólico, desplugado, com pequenos intervalos silenciosos, e com sua voz arrastada e em tom grave, acompanhada apenas do ótimo pianista da banda.

No Youtube, vi alguns vídeos desta mesma performance em outros shows, inclusive na estréia (Tel Aviv), mas nenhum me chamou mais a atenção do que a forma como aconteceu no show do Rio. O cenário era: calor, vento, final da turnê, Madonna com cabelo desarrumado pela umidade – o que trouxe ainda mais realismo pra dramatização -, e chutando o balde na erotização, permitindo-se despir mais.

Por que considero tão especial a performance feita por ela no Rio? Primeiro porque a tatuagem de henna que ela sempre fazia nas costas para cada apresentação foi “Peri/guete”, uma homenagem a uma galhofeira gíria nacional. Madonna, espertamente, aproveitou a oportunidade pra dar uma chacoalhada no pensamento mainstream de que periguetar é algo escroto, vulgar. Pensem bem no simbolismo que é uma mulher de 54 anos, artista consagrada, contestadora, que é mãe e já navegou por arquétipos distintos em sua vida de mulher, escrever a expressão “periguete” nas costas, vestida de roupa íntima, e dizer: “Quero dedicar esta próxima música a todas as periguetes do mundo. Porque precisamos mais delas. Uma periguete inspira outras periguetes. E vamos lá, começar com “Eva””. Nesse momento do show, Madonna fez algo que há tempos não havia se permitido: estar psicologicamente nua, visceral, entregue a seu público sem mais delongas, sem tecnologia, desplugada, em momentos de silêncio, com uma simples luz focada em seu corpo e acompanhada de um pianista vestido de cartola.

Como disse antes, nessa parte do espetáculo Madonna escolheu seguir um script não rígido. Ela faz o que vem à sua cabeça: dirige-se ao público, deita ao chão, escora-se num cajado, sobe no piano, faz uma ponte típica da ginástica olímpica, pede dinheiro aos fãs. Não importa, não se sabe o que ela vai fazer, vai depender do que passar em sua cabeça, vai depender da vaibe do show, enfim, não é um momento como os demais, normalmente ensaiados ao extremo.

O que se viu na Cidade do Rock foi uma mulher em vísceras. Madonna com o cabelo preso, apenas com a franja de lado e ao balanço do vento. O que se tinha ali era uma artista de verdade entregue a seu público. Eu me perguntava: o que passa na cabeça dessa mulher? O que ela quer mostrar, o que ela quer dizer? Vendo a performance, fica mais fácil entender. Ela atazana a vida do pianista, provocando-o. Ela pede dinheiro pros fãs e enfia na calcinha, agacha e lambe o dedo de alguém da platéia, sobe no piano e constrange o pianista a ponto de deixá-lo todo sem graça, abre as pernas e estica uma delas espantosamente, em clara demonstração de obsessão por vigor físico. E morde maçã! Rá! E CANTA, DE VERDADE. Canta lindamente, melancolicamente, em tom de esplendorosa resignação. Termina ao chão, entregue e agarrando-se às notas de dólar que a produção empurra em sua direção. Nessa hora, é possível escutar os dizeres dos fãs próximos gritando “perigueteeee, periguetee”, muito bom!!

Ato contínuo, vem a parte que me encanta mais. Entra uma trilha sonora de suspense, em tom único, que se percebe com o rápido silêncio de Madonna e do público. E eis que de repente ela esboça um movimento, agarra o microfone calmamente como quem se prepara para voltar a cantar, colocando-o em posição voltada para seu rosto. O que acontece? Madonna inicia a cantoria de “Love Spent”, uma das músicas mais bacanas do álbum “MDNA”. E a executa numa versão bem diferente da original, uma versão que tudo tem a ver com a dramatização feita nessa parte do show. Ficou espetacular. E mais uma vez Madonna fez uma canção com referências claras ao ex-marido Guy Ritchie, com quem ficou casada oito anos e depois se separou, mesmo sendo ainda apaixonada por ele à época do divórcio.

Interessante é que essa é mais uma das várias letras que ela escreveu referindo-se ao último marido. E canta a canção aparentando emocionar-se de verdade. Nessa parte, aparece um terceiro elemento na cena: um de seus dançarinos mais bonitos vem ao seu encontro com um corpete na mão para censurar a quase nudez que toma conta do corpo de Madonna. Ele vem num movimento corporal de tirá-la do chão, abraçá-la, acariciá-la e ao mesmo tempo mostrar que é “dono” dela, recolocando de volta o corpete retirado na performance de “Like a Virgin”. Ele chega, a envolve num abraço por trás e fecha o zíper do corpete enquanto Madonna canta e ao mesmo tempo levanta a mão agarrando notas de dólar. Nesse instante, ela está no “hold me in your arms until there´s nothing left!” E então seu macho puxa a cordinha do corpete mais e mais e mais, e Madonna geme de dor em sua cintura sufocada. O som dramático do início retorna e ela inicia uma cantoria falada, dramática, com o cabelo bagunçado, quando saem os dizeres:

“You played with my heart
Til death do we part,
That’s what you said!
Now you have your flash car
Women and bars
It’s gone to your head!”

Daí ela se joga pra frente em direção ao chão, e seu macho a puxa novamente de volta. Ela vem se arrastando, e chega a dar dó: ele a puxa como se o cordão do corpete fosse uma coleira de cachorro. Quando a gente se dá conta, Madonna está ali, completamente submetida, no chão, sendo puxada pelo seu “dono” como uma cadelinha! Nesse momento já saiu de cena a trilha sonora de suspense e entrou uma outra, bem melancólica e bela.

Ao final Madonna se levanta, ameaça se rebelar contra seu “macho dono”, tenta se livrar da coleira jogando-a de lado, olha pra ele como quem não sabe exatamente o que sente, pega parte de deus dólares e enfia na calça dele, olha novamente (só que dessa vez com raiva), dá as costas, senta ao lado do pianista e some do palco, não sem antes debruçar-se sobre este último.

Vendo e revendo a edição de vídeo feita pelos fãs, eu me perguntava: o que leva uma artista em pleno século XXI, de 54 anos de idade, a fazer uma apresentação com tal conotação? É lindo, é incrivelmente lindo ver uma mulher nessa idade, uma artista consagrada, que já fez uma porção de questionamentos e provocações, que já contribuiu tanto para a tentativa de desconstrução de uma série de tabus e conceitos fechados do mainstream, fazendo uma apresentação com esse tom de dramatização. Ali ela se expõe, e mata dois coelhos com uma cartolada só: faz as provocações que, por incrível que pareça, são ainda necessárias, e também disseca as suas próprias questões pessoais. Aquilo é autobiografia puríssima, a letra de “Love Spent” encaixa perfeitamente como metáfora do contexto fático do casamento de Madonna com Guy, até mesmo quando ela fala de grana. A interpretação teatral com a música reforça a idéia da arte como instrumento de tentativa de elaboração de processos psicológicos. E ali se tem uma demonstração clara do quanto ela se permitiu ser “mulherzinha” como nunca. Dêem uma olhadinha na letra da música, isso fica evidente. Abaixo, segue também o link do vídeo edição no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=vRyLwnKy9IE

 

Love Spent

Madonna

You had all of me, you wanted more
Would you have married me if I were poor?
Guess if I was your treasury
You’d have found the time to treasure me

How come you can’t see
All that you needed was right here with me
Up until the end
All this pretend wasn’t for free

Hold me like your money
Tell me that you want me
Spend your love on me
Spend your love on me

Now you have your money
Spend it till there’s nothing
Spend your love on me
Spend your love on me

If we opened up a joint account
Would it put an end to all your doubt?
Frankly, if my name was Benjamin
We wouldn’t be in the mess we’re in

You played with my heart
Til death do we part,
That’s what you said
Now you have your flash car
Women and bars
It’s gone to your head

Hold me like your money
Tell me that you want me
Spend your love on me
Spend your love on me

Love me like your money
Spend it till there’s nothing
Spend your love on me
Spend your love on me
Spend your love on me

I want you to take me like you took your money
Take me in your arms until your last breath
I want you to hold me like you hold your money
Hold on to me till there’s nothing left

Love spent, feeling love spent
Yeah I’m love spent
Wondering where the love went

Love spent, yeah I’m love spent
Really love spent
Wondering where it all went

I want you to take me like you took your money
Take me in your arms until your last breath
I want you to hold me like you held your money
Hold me in your arms until there’s nothing left

Love spent, feeling love spent
Yeah I’m love spent
Wondering where the love went

Love spent, yeah I’m love spent
Really love spent
Wondering where it all went

I want you to take me like you took your money
Take me in your arms until your last breath
I want you to hold me like you held your money
Hold me in your arms until there’s nothing left

 

 

E não é que eu voltei a Israel menos de um ano depois de ter ido? Taí algo que eu não imaginava tão rápido, mas rolou. Tudo impulsionado porque minha amiguinha converteu-se ao Judaísmo e resolveu ir à Holy Land pra casar no religioso com o seu já maridinho judeu. Ah, que lugar foda, interessante, especial, doido!

Voltar a um mesmo lugar é algo que adoro. Nunca é a mesma viagem. Sem mimimi, vamos aos comentários aleatórios e cretinos:

– Primeiro, uma legenda: mexerica = árabe e tangerina = judeu. Essa brincadeira começou porque eu já chamava os árabes de mexerica (pra eles não saberem que estamos falando deles), por causa de uma amiga que morou na França e falava assim. E depois os judeus viraram “tangerinas”, por sugestão de Daniel (que é judeu rs). Bobeirol.

– Com um taxista jóia (aliás, a maioria é muito legal, conversa mesmo, e tem cultura), aprendi o bizu de como identificar um assentamento judaico e diferenciar do árabe: no primeiro, sempre tem muito verde; nas vilas árabes, quase não tem árvore e em cima das casas tem uma caixa preta, que é recipiente pra acumular água. Por uma questão cultural, e talvez por questões econômicas (e, por que não, políticas?), os mexericas não entram no sistema de água de Israel. É uma escolha deles, pelo que entendi.

– Meus amigos se casaram numa cerimônia bem simples e rápida, de manhã, num quarto de hotel com vista para a Old City de Jerusalém. Que graça! Tudo simples, cerimônia fast, assistida por nós e pelo rabino, total de 8 pessoas. Fui uma das que segurou a “rupá” (pano que cobre os noivos na cerimônia).

– Detalhe da cerimônia: no dia anterior ao casório, recebi no hotel um aviso (todos os hotéis receberam) de que uma sirene tocaria no país todo às 10:05h do dia do casamento (14 fev), mas que seria apenas treinamento. Eu fui pro casório sabendo disso e imaginei que todos soubessem, já que o governo israelense distribuiu o aviso em todos os quartos de hotel, num papel grande escrito em várias línguas. Só que os noivos estavam na tensão pré-casório e nem viram o aviso… Não é que no meio da fala do rabino a sirene começou a tocar? A sorte é que o Daniel, que é tangerina e já foi mil vezes a Israel, é um cara tranqüilão e entendeu que nada estava acontecendo, pois ninguém se moveu. Mas ele confessou que ficou super tenso, tadinho! E apertou a mão da minha amiga (noiva) forte… rs

– Contratamos dois guias fenomenais pra nos ajudar a entender as maluquices da história e tradições de Jerusalém: Ariel Finguerman (paulistano e jornalista, mora lá há 12 anos) e David Waisman (boludo de Buenos Aires e mora lá há uns 20 anos). Indico! Ambos judeus razoáveis, inteligentes, cadastrados pelo Ministério do Turismo de lá (o trabalho de guia é bem valorizado na região), e sabem falar da versão cristã e muçulmana também. O Ariel já foi jornalista da Folha, fez doutorado sobre o holocausto, enfim, é um cara com currículo respeitável. O que eu achei mais bacana é que eles sabem separar o que é tradição do que é folclore e do que é científico. As explanações eram bem legais também por isso. Não recomendo ir a Jerusalém sem um guia, não é fácil entender sozinho. Já é a segunda vez que vou e mesmo assim muita coisa nova aprendi desta vez. E já esqueci boa parte! Muita informação… rs

– Perguntei ao Ariel o porquê de a área da reza, no Muro das Lamentações, ser menor para as mulheres em relação à área destinada aos homens. Ele disse: o discurso oficial diz que é porque as mulheres não precisam rezar (no Judaísmo, a obrigação é do homem). Mas, na verdade, não convence (segundo ele). “É machismo mesmo”. Eu ri.

– Perto da Cesaréia existe um povoado do Sudão, eles são muçulmanos e se estabeleceram ali há muito tempo, ninguém mexe com os caras. Né fácil não! Todo mundo quer um pedaço daquele deserto!

– Fui de Air France desta vez. Os caras fazem uma média com os judeus, junto com a refeição vem um bilhete escrito: “esta refeição não contém porco”.

– O guia Ariel nos levou à cidade de David, que fica ao lado da Cidade Velha, do lado de fora. Não tinha ido ainda. Ali se percebe que a Cidade Velha não é a parte mais velha de Jerusalém… Hummm… E mesmo há quatro mil anos atrás o desgraçado do rei construiu um túnel irado, escamoteado, que o fez ter acesso a água e de forma a não dar mole aos invasores. É possível caminhar por este túnel, a água é deliciosa, surge do solo no meio do nada! Mas achei muito apertado, escuro, descobri que tenho tendências claustrofóbicas! Rs – Não consegui ir. Fiquei chaaaatiada. Mas pelo menos cheguei perto do começo do túnel e senti a água nos meus pés. Escavações são feitas até hoje neste local e há residências mexericas. O governo israelense já ofereceu valores altíssimos pros caras saírem de lá, mas eles não aceitam sair por grana alguma. Enfim, se existe um lugar histórico e arqueologicamente importante em Jerusalém, este lugar chama-se Cidade de David. Muito difícil administrar Jerusalém! Por que uma única cidade tem que ser tão importante pra três religiões monoteístas tão fortes?? Que preguiça, complicado demais. Na booooua.

– Olha, Ariel nos contou uma coisa que eu realmente não sabia: as esposas dos tangerinas ortodoxos trabalham e são as provedoras da casa. Ahhhh… Bingo! Entendi como funciona: os caras não servem o Exército, não trabalham, não fazem controle de natalidade (fazem 5, 6 filhos ou até mais), a mulher se ferra pra trabalhar e cuidar da prole e eles ficam em casa rezando e estudando. E eles garantem a manutenção dessa situação por terem poder político fortíssimo. Ahh, ok. Agora entendo a reclamação dos demais cidadãos israelenses! São eles que pagam esta conta. Conversando com uma local de mente razoável, ela disse que sequer aula eles dão. Apenas ficam estudando a Torá entre eles, não passam conhecimento religioso pra mais ninguém. É, entendo as críticas. E os caras são uns personagens se vestindo. Comédia! E eles sempre estão andando rápido, com a cara fechada, como se estivessem estressados com alguma coisa. A máscara social deles é das mais intrigantes, você olha praquilo e pensa na obsessão humana em alto grau. Os fundamentalistas são muito é chatos, isso sim. Salve Sigmund!

– Entramos numa loja de roupa na rua Ben Yehuda, em Tel Aviv, e não compramos nada. Mas ficamos quase uma hora conversando com a vendedora, uma israelense fabulosa. Temas: carnaval, a questão palestina, a educação no Brasil e em Israel, os ortodoxos (o sangue dela ferveu com o assunto… rs), o quanto Tel Aviv é o alter ego de Jerusalém… Os israelenses no geral são muito conversadores. Delícia!

– Vale o registro: Israel tem ótimos produtos pra pele e cabelo. Claro, lá é deserto, até os homens são obrigados a se lambuzar de vez em quando. Alguns produtos são apenas para consumo em Israel, como a linha Premier, feita com minerais do Mar Morto. Mas no mercado negro dá pra achar, na net inclusive. Comprei um monte de coisas dessa vez, rá! Minha mala voltou com quase dez quilos a mais. Inédito!

– Guardem esse nome: Derech Hagefen. Lê-se “Déref Raguéfen”. Trata-se de um restaurante que eu já tinha ido ano passado e voltei. Fantástico! Fofo, fica dentro de um Moshav na região de Beit Zait, pertinho de Jerusalém, bem próximo às Colinas da Judéia, todas as verduras são colhidas ali mesmo, na horta do lugar. Local pitoresco, parece que se está numa esquete bíblica. Tomamos um vinho ótimo chamado Petit Castel, de Jerusalém mesmo. Bem diferente.

– Tem vários gatos em Tel Aviv, perdidos! Eles entram nos cafés às vezes, e o povo os alenta.

– Locais cristãos que eu não fui da outra vez e conheci agora: Jardim de Getsêmani, supostamente onde Jesus foi capturado (folclore, não há como saber) e na Igreja do Santo Sepulcro, onde tem a tumba dele. Duas observações: no Jardim tem uma igreja e entrei rapidinho. Tinha uns padrecos mandando bala num canto gregoriano. Morri! Abri o bocão pra chorar, não consigo lidar!! Muito tocante. No lugar da tumba, o que chama a atenção é que ela é toda dividida entre as facções cristãs. Detalhe pra uma parte da igreja que está queimada até hoje (teve um incêndio há um tempo atrás) porque toda e qualquer reforma deve ser aprovada por unanimidade, e isso ainda não foi alcançado. Bizarro!!

– Dessa vez tivemos tempo de explorar a gastronomia de Tel Aviv, excelente! (Vou postar no twitter algumas fotos de comida –http://www.twitter.com/missraquel28). Tem de tudo, de carne argentina a comida mediterrânea, isso que é legal. A night também exploramos um pouco, vale a pena. Fomos numa festa rock num dia e em outro numa boate de, claro, música eletrônica, que os israelenses amam e têm tradição. Os caras soltam os demônios do corpo dançando, é muito maneiro.

– Desde a primeira vez que fui, me intrigou ver como eram as construções próximas à praia em Tel Aviv. A cidade parece ter dado as costas pro mar. Mas num filme vi o comentário de um personagem dizendo exatamente isso: a cidade “nova”, construída por europeus, deu mesmo as costas pro Mediterrâneo. Pra quem tem alguma sensibilidade urbanística, é fácil perceber isso. Depois, tentou-se mudar, há um calçadão, as pessoas vão à praia, tem partes que são só pra prática de esportes, enfim, é bem legal, mas pelos prédios e casas você vê que os caras inicialmente deram as costas pro mar. Lamentável.

– Obs.: “Tel” significa exatamente o princípio segundo o qual há que se procurar para baixo vestígios de outras civilizações, pois uma se sobrepõe à outra. “Aviv” significa primavera.

– Finalmente conheci o museu do holocausto, em Jerusalém. Excelente, muita informação, muitos vídeos, não tem uma vaibe apelativa, enfim, achei ducarai. Experiência forte, em alguns momentos você não se segura. A parte que me deu mais nó na garganta foi o memorial de homenagem às crianças. É um troço lindo de se entrar, escuro, com luzes e fotos de alguns pequeninos, e tem uma gravação que fala, sem parar, os nomes e idades das crianças que sabidamente foram aniquiladas. Rapaaz, ficamos umas 5h dentro do museu e eu não explorei tudo. Você sai arrasado. Fui dali direto comer húmus com faláfel pra animar a vida. Bando de fdp! De pensar que essa merda aconteceu ontem em termos históricos… Não consigo lidar com o holocausto, não consigo aceitar essa bosta.

– Voltando de Jerusalém pra Tel Aviv, pegamos um taxista que era Jesus. Aliás, meninas, isso é uma das coisas mais legais de Israel: você vê um monte de Jesus na rua… rs… Tenho como referência em minha mente Jesus como um homem interessantíssimo, barbudo e narigudo, com traços fortes, cara de ogro. Essa é a fantasia que tenho dele, ou seja, um cara joinha joinha. Maria Magdalena foi uma mulher de sorte! Então, o taxista era DJ também e nos deu a seguinte dica: MOKSHA PROJECT. São as festas semanais nos desertos de Israel. Coloquem no youtube e vocês verão como os israelenses têm uma relação linda com a música e a dança. Vejam este vídeo, amei! Uma banda chamada SHPONGLE, um mix de sons (progressivo, psicodélico, eletrônico e lírico), eles tocaram nesse projeto.  http://www.youtube.com/watch?feature=endscreen&v=9H4dIkOQDuI&NR=1

– Na loja de cosméticos no caminho do Mar Morto, um dos vendedores era um brasileiro que morava em Jericó, que é a cidade mais antiga do mundo e que hoje está nas mãos da ANP. Ele tem documento de residente fixo lá, e se disse feliz. Só que ele não pode entrar em Israel. Aliás, foi a segunda vez que passei pertinho da cidade, mas não conheci. Snifff.

– Ah, bom lembrar que o taxista que nos levou à Cesaréia não só nos fez um preço ótimo como também foi nosso guia lá. Sensacional! Os caras são muito maneiros.

– A Igreja Católica tem uma pica pequenina na Holy Land. Na ala cristã, quem manda é ortodoxo, senhores.

– Curti muito a área da Vital Street, em Tel Aviv. Pequenos bares/pubs bem legais, um monte. Vale um pulo. E tem boates para menores de idade! (16/17 anos). Que engraçado. Ah, Tel Aviv tem um lugar análogo a Porto Madero também, é legal, vale uma ida.

– Na night, muita gente fuma dentro da boate. Toscão, eles toleram muito o fumo (tô falando de cigarro mesmo).

– A quem interessar possa, fiquei no Hotel Gilgal em Tel Aviv e no Mamilla, em Jerusalém. Este último é excelente, modernoso e muito bem localizado, mas não é barato. O Gilgal tem ótima relação custo-benefício.

– Pra quem tem dificuldade em avião em viagem longa: a Air France oferece a opção de um assento mais confortável pagando-se uma taxa a mais. Achei que vale a pena. E se você é como eu, que não dorme nada em viagem longa, recomendo um remédio chamado “Dormonid”, ele vai te apagar por umas 5h sem você acordar ressacado. Amei!

– Atendendo a pedidos (rs), vou contar sobre a brazuca que conhecemos no avião no trecho Rio-Paris. Papo vai e papo vem, ela foi dizer o que fazia da vida. A resposta foi: “Sou funcionária pública no Brasil, e trabalho com construção em Rio das “OstrA” (sic). Mas eu moro mesmo é em Zurique, na Suíça.” Ahhhhh, tá. Joinha! Na boua, véi… Muito bom! A pergunta é: como eu consegui segurar o riso??

Saí de férias repentinamente. Precisava, fui na onda do chefe, que também tirou dias off depois de um ciclo de quatro anos que se encerrou pra todos nós. Queria um refúgio, um lugar onde não estivesse um calor opressor (no Brasil num rola, né?), queria terminar de ler meus livros abandonados, queria escutar o silêncio, queria natureza, mas sem esforço, queria ter acesso a um lugar naturalmente lindo mas que estivesse na minha cara, sem que eu precisasse fazer um movimento para chegar até essa beleza. Pesquisei muito, até encontrar a opção jóia pra vaibe em que me encontrava. Valeu, Booking.com, você me ajudou. Fechei uma passagem prum lugar que até então não me apetecia: Bariloche. E fiquei num hotel que simplesmente superou qualquer expectativa que eu poderia ter fantasiado: Charming Luxury. Pago pau MESMO pra eles, fui tratada como rainha. Uma fofura de lugar. Como me disse o dono, que sempre está lá: a idéia do hotel é não parecer hotel. Esse é o diferencial, é o carinho, é o cuidado e a doçura no tratamento aos hóspedes. Um mimo, uma coisa realmente marcante da viagem.

Fiquei seis dias enfurnada dentro do hotel. Não saí, simples assim. O lugar era um fim em si mesmo. Eu não queria fazer tracking, rafting, blá blá, eu queria fazer nada, queria ler na varanda, queria ouvir rock no meu quarto, tomar banho de praia (lago, na verdade – água doceeeee, amo), fazer sauna. Foram seis dias de contemplação da paisagem, que estava ali, na minha cara, sem que eu precisasse me mover.

Meu dia começava com o delicioso café da manhã. Especial. O iogurte artesanal era absolutamente único. E todos os quitutinhos eram feitos pelos confeiteiros locais, tudo fresquinho, uma delícia. Nunca tinha vivenciado numa viagem esta vaibe de acordar e ficar no hotel, curtindo um café da manhã demorado, tomado e comido com muita calmaria, com silêncio, me senti meio monge fazendo isso, eu ficava sentada do lado de fora do restaurante com uma vista sensacional, onde se podia ver a harmonia das montanhas com o verde seco e o lago. E, de quebra, havia a praia, que estava ao lado, embaixo (o hotel fica na ponta da praia, numa montanhazinha). Eu ficava olhando pra ela, esperando a temperatura subir pra poder descer e nadar que nem um peixe. Como eu amo nadar, e como eu amo água doce e muito gelada! Isso vem da minha relação com as cachoeiras, que é constitucional, vem da infância, eu morei anos do lado do Parque Nacional de Itatiaia, no estado do RJ.

Praia: um capítulo à parte na minha vida. Quando criança e adolescente, gostava, e a praia que sempre freqüentei nas férias e de vez em quando em finais de semana era Grumari, no Rio. Meu pai é de Campo Grande, na Zona Oeste, e a gente ia numa época que não enchia muito, tempos em que a praia era mais roots e ia mais o pessoal que morava próximo. Depois eu cresci, virei adultinha (nem tanto rs) e me tornei uma chatinha, que acha que o trio sol+sal+areia não combina, é incômodo. Vim morar na capital e virei uma garota meio anti-praia. Mas isso vai até a página cinco, não é tão simples: eu gosto de morar pertinho do mar, gosto de toda a informalidade que a praia traz aos seus arredores, curto me exercitar nela (à noite), mas não curto ir à praia em si, ficar lá pegando sol – até porque sou um pouco fotofóbica (Brasil pra mim é símbolo do excesso de sol e calor, me enjoa rs), e sou meio neurótica com pele. E aí de repente me pego num hotel foférrimo, na Argentina, cuma praia sem areia e sem sal, com água doce – e bem gelada! Que descoberta tremenda! Fiquei apaixonada, nadei como há anos não fazia, curti pra dedéu, parecia uma criança. Conclusão: uma brasileira tem a seu dispor 8 mil quilômetros de litoral e foi encontrar a praia da vida em Bariloche, em terras boludas. Digam: sou ou não sou uma boludinha de alma?! Rs – Minha argentinidade teve um upgrade depois dessa viagem, fato… rs

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– Pelo que entendi, a dinâmica de um dia de sol e praia lá funciona assim: de manhã, o sol está meio escondido nas montanhas, então a praia fica mais vazia, numa temperatura ainda meio baixa (uns 17 graus). Vai subindo, quando dá tipo 13h o calor fica forte, já rolam uns 28 graus, esquenta mais e mais e quando dá 5 da tarde a praia começa a ficar mais cheinha. O sol vai até 21:30h, mais ou menos! Juro que eu não sabia disso. Escurece completamente por volta das 22h.

– O luar: o que era aquilo?! Dei uma sorte bizarra de pegar dias espetaculares de luar, a luz da Lua simplesmente se derrama sobre o lago, formidável. Sem palavras pra descrever aquilo, sem. Digno de ser admirado, ponto.

– O hotel tinha uma coisa super fofa que era cravar uma bandeirinha do país do hóspede em cada varanda. Adorei! Em cada habitación tinha lá a flâmula, pequenina, porém muito lindinha, balançando ao passar do vento. Uma fofura, achei isso uma atitude muito lindinha do estabelecimento.

– A idéia desse hotel onde fiquei é o SPA privado: boa parte dos quartos (20 no total, o lugar é pequeno, o que aumenta o teor de aconchego) tem sauna seca e a vapor dentro, banheira de hidromassagem, e vista pro lago e pras montanhas. Simplesmente great! Vale cada centavo.

– Segundo um taxista com quem conversei, o turismo de verão nos últimos dez anos já superou o turismo de inverno em Bariloche. E realmente deu pra perceber que tinha muitos argentinos de outros lugares por lá. Brasileiros preferem ir no auge do frio – o que eu achei ótimo (rs).

– De quebra, tive idéia de como os boludinhos curtem a “praia”. Tomam sol como se não houvesse amanhã (entendo!), alguns ficam de roupa, comem empanaditas, choclos e tomam suco de framboesa (?) vendidos pelos “Coca/água/Skol” deles, e tomam “mate”. Eu ficava lá na minha, me permitindo curtir o sol depois das 17h, e vi vários grupinhos de lúdicos adolescentes de férias, se entretendo. Bonitinho.

– Pela primeira vez numa viagem, me arrependi de não ter adiado a volta. Pensei em fazer isso. Pena, não fiz. Os dias estavam realmente lindos, com a vantagem de ter um calor não opressor, um calor seco, diferente, com noites e manhãs MUITO agradáveis. Quiero volver!